Resenha por Fernanda Mendes
No
ano de 1981, o educador Paulo Freire reuniu em seu livro A importância do ato de ler três textos, sendo eles uma palestra sobre a importância do ato de
ler, uma apanhado sobre a biblioteca
popular e sua relevância no processo de alfabetização de adultos e um artigo sobre sua experiência na
alfabetização de adultos na República de São Tomé e Príncipe.
São
Tomé e Príncipe havia sido descoberta no ano de 1470 por exploradores portugueses,
e não existem registros de ser habitada por seres humanos até então. Ali, os
portugueses resolveram colonizar e assim se aproveitar do uso do solo, bastante
fértil para a plantação de açúcar, café e cacau, e para isso iniciaram a
importação de escravos africanos para a exploração dessas terras. Até o ano de
1975, São Tomé e Príncipe era uma colônia de Portugal, e cerca de 60% de sua
população era analfabeta. Neste ano, através de reivindicações sociais e com o
apoio do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP), o país se
tornou independente e neste contexto, Paulo Freire fora convidado para
implantar um programa que diminuísse as taxas exorbitantes de analfabetismo
daquela população. Para fazer isso, ele deixava claro seu pensamento sobre uma
educação sem a dicotomia entre a leitura do texto e a leitura do contexto. Com
seu método, o educador conseguiu diminuir as taxas de analfabetismo para cerca
de 25%.
O
livro, entretanto, aborda esta experiência educacional tão específica de uma
forma que alcança a todos, educadores ou educandos, nas mais diversas situações
pois em suas palavras descobrimos a possibilidade de tornar a educação uma
forma de conhecimento de mundo, de si mesmo e um instrumento de libertação.
A
principal ideia aqui está na frase: “A
leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo”. Neste sentido,
o que é leitura da palavra? E leitura de mundo?
- LEITURA DE MUNDO: É a leitura que vem antes da leitura da palavra. São os primeiros contatos com os sons, as formas, as cores, os gostos, os cheiros e tudo o que cerca o objeto. Em seus escritos, Paulo Freire diz que sua leitura de mundo enquanto criança, em seu mundo imediato, lhe fazia perceber os “textos”, as “palavras” e as “letras” no canto dos pássaros, no movimentos das folhas das árvores quando sopradas pelos ventos, em seus gostos, também nos animais e em suas reações, e tantas outras percepções. Por fim, percebia que a linguagem dos adultos se relacionava a conceitos mais amplos que aquele de seu mundo imediato, o mundo que ele lia, que ele conhecia, fazendo-o perceber que haveria muitas outras coisas que ele conheceria, coisas que ele ainda não havia tido contato.
- LEITURA DA PALAVRA: Esta é a leitura dos signos, dos caracteres, que só vira a acontecer de forma significativa e libertadora, segundo Paulo Freire, após a leitura de mundo. Aqui a palavra lida será a palavramundo. Sem a leitura de mundo, a palavra será apenas uma repetição mecânica e sem significado real.
“A leitura do mundo vem antes da
leitura da palavra, por isso, quando lermos a palavra não podemos abrir mão de
continuar lendo o mundo.”
A
maneira de alfabetizar o povo proposta por Paulo Freire era usando os CÍRCULOS
CULTURAIS, onde no lugar de uma sala de aula tradicional o círculo
teria a função de realizar uma educação através de debates sobre questões como
trabalho, cidadania, saúde, política e etc. No lugar de cartilhas, o material
seriam textos trabalhados na BIBLIOTECA POPULAR, de origem do
próprio povo, e também os CADERNOS
CULTURAIS que trabalhavam com temas geradores e fichas da descoberta,
além da figura do professor que seria revista na pessoa do ANIMADOR CULTURAL, o qual
deveria orientar e incentivar estes debates.
Em suas
recordações de infância, Paulo Freire menciona o medo que tinha de “almas penadas”, e que isso despertou
nele uma curiosidade em conhecer e entender os ruídos que de dia existiam e que
pareciam desaparecer de noite. Com o tempo, quando ele conseguiu se tornar
íntimo do seu mundo, percebendo melhor e o lendo melhor, esse medo foi
diminuindo. Isso é um paralelo com a importância do ato de ler o mundo, que nos
faz compreender o contexto em que vivemos e até a nós mesmos. Ler o mundo, ler
a palavra e reler o mundo novamente de maneira crítica, ou seja, ler a leitura de
mundo que se fez anteriormente, modificando, desvelando e recriando o mundo.
Continuando
com suas lembranças, agora já como adulto e professor, ele nos fala à respeito
de aguçar a curiosidade (sentimento extremamente necessário para o aprendizado)
dos alunos para os conteúdos, diferente de apenas despejar o conhecimento como
se fossem comprimidos que estes tivessem que engolir. O conhecimento é algo
vivo e dinâmico, e deveria instigar o aluno a desvendar o seu significado profundo. Isso é muito
importante, conhecer não apenas o conceito do objeto, com uma memorização
mecânica, mas conhecer o seu significado, o porquê, o como, entender a fundo
aquele objeto, conhecê-lo em sua íntegra.
Outro
momento interessante nesta obra é o de que a alfabetização é a criação ou a
montagem da expressão escrita da expressão oral, ou seja, escrever aquilo que
se fala, que se comunica. E esta montagem não pode ser feita pelo educador para
o alfabetizando, o estudante deve criar, cabendo ao professor aclarar,
auxiliar.
Um
termo interessante usado nesta obra é “palavramundo”. Este termo nos
remete que ao ler o mundo e após se apropriar da leitura da palavra, aquele
objeto passa a ser a “palavramundo”, ou seja, com significação, com
entendimento, onde não há uma ruptura da leitura do mundo e da leitura da
palavra. Com isso vemos que o processo de alfabetização possui em seu aspecto
central o movimento dinâmico que é:
A educação progressista libertadora de Paulo Freire nos diz que não existe neutralidade no ensino e que a educação é um ato político. A educação quando se proclama como não neutra se afirma em um ato que visa o interesse do povo. Neste livro, o autor nos fala que nós, enquanto educadores, devemos assumir a nossa opção, que sempre será política, e ser coerentes com ela na prática. Devemos também nos ater a escutar nossos alunos com a convicção de que este é o nosso dever e não por acharmos que ouvir os alunos é um favor, ou ainda esperando receber algo em troca. É necessário entender que ninguém sabe tudo e que ninguém a tudo ignora.
Ainda
de acordo com o livro, Paulo Freire explicita que as elites acreditam que
exista uma incapacidade quase natural do povão de pensar certo, de abstrair, de
criar e que portanto este precisa ser “defendido”. Então a cultura e os saberes
populares devem ser extintos e assim a sociedade seria mais elitizada, com
conhecimentos “válidos”. Nessa perspectiva a ideia da biblioteca popular vem
para quebrar esta hegemonia cultural.
- BIBLIOTECA CULTURAL: É um centro cultural de textos criados pelo povo, onde devem existir seminários de leitura e a linguagem popular é intensamente rica. Ali, o povo tem de ser sujeito da pesquisa que procura conhece-lo melhor e não somente objeto da pesquisa que os especialistas fazem em torno dele. Uma frase interessante aqui é: ”Fazer história é estar presente nela e não simplesmente nela estar representado.”
Os
trabalhos de leitura na educação implantada segundo Paulo Freire tinham como
premissa que qualquer que seja o texto, terminada a sua leitura é indispensável
a discussão em torno dele. Isso aguça a criticidade do educando.
Ao
ler esta obra, vemos também que não se estuda apenas na escola. Estudar é
assumir uma atitude séria e curiosa diante de um problema. Não importa que o
estudo seja feito no momento e no lugar do nosso trabalho. Não importa que o
estudo seja feito em outro local ou momento, pois em qualquer caso, o estudo
exige sempre esta atitude séria e curiosa na procura de compreender as coisas e
os fatos que observamos. Estudar exige disciplina. Estudar não é fácil, porque
estudar é criar e recriar e não repetir o que os outros dizem. Estudar é um
dever revolucionário.
Pensando
na temática da reconstrução nacional de São Tomé e Príncipe, o educador retrata
a relevância de fazer nascer o homem novo e a mulher nova. Mas o
que seriam esses conceitos?
- HOMEM NOVO E MULHER NOVA: Nascem com a prática da revolução revolucionária da sociedade. Devem ter compromisso com a causa do povo, com os interesses do povo. O uso da correta militância política, e a superação do egoísmo e da individualidade são características do homem novo e da mulher nova. Mais uma vez a afirmação importante de que estudar é um ato revolucionário é usada neste contexto. O conhecimento deve ser usado para a justiça, a educação deve dar valor ao desenvolvimento do espírito crítico e nunca à passividade. A educação deve incentivar às pessoas a pensar certo.
Um
ponto que poderemos salientar aqui é o fato de Paulo Freire entender uma
sociedade justa alicerçada em uma educação que não separe o trabalho manual do
trabalho intelectual. Por isso, as escolas serão chamadas de escolas
do trabalho, onde um dia ninguém trabalhará para estudar e também não
estudarão para trabalhar, pois todos estudarão ao trabalhar.
Existem
muitas outras observações que poderíamos fazer sobre a obra que com certeza
deve ser lida e apreciada não só por estudantes de pedagogia como por todos nós
para adquirirmos mais consciência sobre os processos educacionais que nos levam
à libertação social, entretanto, finalizo aqui com uma afirmação bem necessária
para construção justa da identidade cultural:
“Todos os povos têm cultura, porque trabalham, porque transformam o mundo
e, ao transformá-lo, se transformam.”
Fernanda Mendes, Goiânia, 16
de junho de 2020.

Muito Bom Fernanda Parabéns👏👏
ResponderExcluirMuito obrigada 😘
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