Resenha por Fernanda Mendes
No início do século XX nos Estados Unidos da América havia uma consolidação da economia industrial e uma crescente estruturação do sistema capitalista. Neste contexto, é imperativo que exista a construção de novas escolas, como também uma nova concepção do sistema educativo que atenda os anseios populares e que consiga resolver os problemas resultantes da educação daquele momento, isto é, preparar corretamente os indivíduos para seus futuros papéis na sociedade industrial.
Neste
cenário, onde a era da ciência exige exatidão e especificidade, a educação era
vista por muitos como a cura social para crianças delinquentes, crianças
pobres, imigrantes e raças minoritárias como indígenas e negros (resultante de
uma ideologia de estratificação social). Muitos teóricos, filósofos e
sociólogos da época fizeram suas contribuições sobre a temática, dentre eles
Armstrong que acreditava ser “a formação manual uma forma de corrigir
os defeitos de caráter dos afro-americanos”. Percebemos que a intenção da
educação era controlar socialmente os indivíduos. Conforme vamos avançando na
leitura, vamos percebendo isso de maneira mais clara.
John
Franklin Bobbit, nascido em 16 de fevereiro de 1876 no estado de Indiana, nos
EUA, dedicou sua carreira ao campo do currículo. Representa a corrente de
pensadores que preza pela eficiência,
sendo esta palavra aliada a objetivos os
termos mais importantes de suas obras. Para ele, as pessoas só deveriam
aprender aquilo que fosse realmente útil na vida prática, o que resultou em um
currículo prático, objetivo, baseado na solução dos erros, que são visto como
desperdício, o fruto de uma visão limitada. Então, nesta perspectiva, a escola
não tem como papel a transformação da sociedade, mas sim funcionar como agência
de controle social, estruturando-se na base de critérios de eficiência
(taylorismo).
“A educação para a eficiência não é propriamente um sentimento, mas um
negócio, não é caridade, mas sim uma orientação.”
Bobbit
percebia a escola como uma fábrica, onde se produziria o adulto desejado, com a
personalidade moldada e trabalhada. Percebemos que assim sendo, a ideologia da
eficiência social é cheia de padrões de segregação, pois visava colocar cada um
em seu lugar pré-determinado, como se cada classe ou conjunto de pessoas
tivesse nascido para determinado papel. Para o eficientismo, de acordo com as
palavras de Levine: “temos de parar de ensinar a criança mediana, o gênio e o lerdo, eles
não podem aprender ao mesmo tempo. Há que se formular um currículo para estes
tipos de criança”. Atualmente, vemos que a multiculturalidade, a junção
dos diferentes, o convívio com as mais diversas pessoas oportuniza um
conhecimento rico, um aprendizado mais integrador e humanizado. Também defensor
do currículo eficiente, Kliebard afirma dever existir um currículo diferenciado
para as classes sociais diferentes.
Dewey,
filósofo e pedagogo respeitado por suas contribuições à educação, mostrou-se
resistente a vocacionalização do currículo que em suas palavras “estava a minimizar a função mais importante
da educação, a promoção do crescimento intelectual e moral”. Dewey ainda
afirmou “um currículo virado apenas para
a eficiência técnica faz da educação um instrumento perpétuo de manutenção da
ordem social existente, em vez de operar como veículo de transformação”.
Outra
observação importante a se fazer é a referência do autor ao modo em que a mente
sempre está ávida a conhecer, por curiosidade própria, sem no entanto
preocupar-se na utilidade prática daquele conhecimento, daí a importância em
selecionar os conteúdos de forma prática e útil.
A
maneira de aprender deve partir do conhecer, manipular, observar e depois ler a
reconstrução das experiências de outros. Bobbit destaca veementemente a
importância das aulas práticas através das atividades domésticas, destacando-se
entre elas: a construção em geral, a costura e a gastronomia.
A respeito dos objetivos da educação profissional, Bobbit salienta que quando os professores envolvem-se em levar o aluno a atingir o máximo de suas capacidades, desencorajando-o às ditas “profissões inferiores” (comerciantes, mineradores, agricultores, operários e etc.) resulta em uma frustração da maior parte destes alunos. Isto pois quando adultos e estiverem se inserindo no mercado de trabalho perceberão que não há espaço para todos, e acabarão se inserindo nestas profissões porém de forma despreparada. O ensino desta forma culmina na evasão de jovens ao perceberem a falácia educacional (ainda que bem intencionada) ao que o autor chamou de “bom senso”.
Para uma eficiente educação é necessário a transmissão dos conhecimentos dos membros mais velhos aos mais jovens, ao que neste olhar a escola deve atuar como primeira agência do progresso social, fazendo com que a geração mais nova cumpra com suas funções no mercado de trabalho de forma mais eficiente que seus pais.
“A educação é o caminho
para o progresso social. Como agências de progresso social, as escolas deviam
prestar um serviço eficiente e um serviço orientado, não por suposição,
capricho ou especial interesse próprio, mas pela ciência.”
A ciência deve dominar a consciência do trabalhador, que deve pensar em cada fator nos termos da ciência. Assim sendo, essa eficiência se traduzirá em números, por exemplo: se antes um pedreiro era capaz de assentar 150 tijolos em uma hora, com a formação técnica especializada ele será capaz de assentar 350 tijolos no mesmo espaço de tempo. Aqui é evidenciado a valorização da destreza manual em determinadas profissões aliada ao discernimento intelectual. Sem a formação técnica necessária, em frente a um problema relativo ao trabalho o sujeito terá três possíveis reações:
- Aplicar procedimentos empíricos, ou seja, aqueles que ele conhece por praticar ou de ouvir praticar;
- Imaginar uma possível solução;
- Não saber o que fazer.
O
indivíduo formado tecnicamente se sente preparado frente às diversas situações,
não tendo que adivinhar as soluções, pois sua base será científica. Por esse e
ainda outros motivos, a educação deve servir como uma preparação para a vida
inteira. O indivíduo formado tecnicamente é capaz de assimilar facilmente novos
conhecimentos de sua área específica, acompanhando assim as inovações
científicas necessárias para a eficiência do seu trabalho. Aquele porém que não
possui essa formação jamais conseguirá acompanhar as inovações necessárias ao
seu trabalho, pois não possui os conhecimentos prévios necessários.
Fazendo
uma analogia à divisão do trabalho e suas alienações, Bobbit relaciona o
trabalho do professor em sala de aula como o de um funcionário que não
acompanha todo a produção de um determinado produto. Pensando assim, fazendo um
paralelo em que o professor é o operário e o aluno o produto trabalhado, ele
menciona que o educador deve ser especializado em uma área, porém deve ser
generalista em todas as outras, ou seja, ter conhecimento básico sobre todo o
ensino que o educando receberá, pois isso influenciaria no produto final: o
adulto desejado.
TAYLORISMO
Nesta
altura do livro o autor aborda um pouco sobre o Sistema Taylor, fazendo certa
referência a este na educação. No taylorismo não se espera que os trabalhadores
façam qualquer reflexão ou julgamento ou ainda que tomem qualquer decisão, pois
tudo é feito para eles, que simplesmente obedecem a ordens. Para Bobbit, o
taylorismo era meio caminho andado para uma gestão eficiente, o que faltava era
dar aos trabalhadores o conhecimento necessário para saber executar as ordens recebidas.
As atividades escolares para a formação vocacional devem dar aos indivíduos uma noção da realidade, quanto à natureza do trabalho e dos materiais utilizados no trabalho, sendo assim a escola é um local de treinamento. Vemos neste contexto uma exaltação à necessidade de uma escola que ensina na prática a manipulação de matérias primas, como madeira, metal, ferramentas, tecidos e etc, ao que Bobbit chama de alfabeto da experiência. Além da experiências com estes objetos, os alunos deveriam conhecer o comércio (compra e venda), manipulação do dinheiro, poupança e seguros, contabilidade e afins.
O BOM CIDADÃO
Desde as sociedades primitivas e mais antigas de que se tem notícia, as pessoas tendem a ter comportamentos baseados em duas virtudes: as intragrupo e as extragrupo. Essas virtudes seriam baseadas no sentimento de pertencimento a um determinado grupo, tendo em vista a subsistência do mais forte. Explicando melhor, uma pessoa de uma determinada tribo ou grupo deverá proteger os seus e repelir os “estrangeiros” de maneira enérgica. O bom cidadão então é visto como aquele que possui ambas virtudes básicas:
- INTRAGRUPO
à
Dentro de um grupo; que se efetua, tem lugar ou está inserido dentro de um
grupo social, instituição ou comunidade.
ü
Ajudar o outro;
ü
Ser justo;
ü
Ser cortez;
ü
Ser modesto;
ü Ser humilde.
- EXTRAGRUPO à Fora de um grupo, que é estranho aquela sociedade e não está inserido naquela comunidade.
ü
Destruição;
ü
Arrogância;
ü
Crueldade;
ü
Mentira.
Aquele
que é bondoso com o inimigo comete o crime de traição, e deverá ser julgado com
o mesmo rigor daquele que é mal com os de seu grupo. Isso significa então que a
natureza virtuosa ou repugnante de um ato em si não está no próprio ato, está
no contexto social acerca deste. As virtudes e os vícios são vistos como coisas
relativas e não absolutas. Matar uma criança de uma comunidade inimiga não tem
o mesmo peso que matar uma criança da própria comunidade. Neste contexto,
Bobbit diz que é mais comum uma pessoa possuir as virtudes extragrupo em um
patriotismo exacerbado que praticar as virtudes intragrupo.
Essa
virtude dupla, imposta pela divisão social, leva à escola a necessidade de
conceber um currículo que produza uma grande consciência de grupo, gerando nos
jovens o sentimento de pertencimento. Essa consciência fará com que o sujeito
pense, sinta e aja com o grupo, como parte dele.
O
bom cidadão deve olhar pelo bem coletivo, ou seja, pelo bem municipal em geral.
As escolas então devem incentivar o conhecimento de temas práticos relativos à
vida em comunidade, como: pavimentação asfáltica, eletricidade, impostos,
saneamento básico, campanha contra mosquitos e outros. As pessoas ligadas à
educação deveriam liderar a orientação e a realização das funções e tarefas
cívicas. Numa democracia representativa a principal função das pessoas,
enquanto cidadãos é a realização da sua função de inspeção.
Sobre
a educação física e os cuidados com o corpo, o autor relata que formar para um
nível elevado de vitalidade física é um dos aspectos fundamentais da formação
para a eficiência vocacional. A formação física perfeita é aquela que atinge
100% de nível de vitalidade e consegue manter este nível. Assim sendo, deverá
conter não somente exercícios musculares como instruções sobre um período de
sono suficiente, hábitos alimentares corretos, proteção contra os
microorganismos, e etc.
Bobbit
afirma ainda ao longo da obra a necessidade imprescindível de cultivar o hábito
de ler. Obviamente, ler aquilo que apresente uma revelação adequada dos dramas
humanos, ou seja, ler para ter algo que o ajude a ver a vida de maneira
totalizante. Essas leituras seriam sobre viagens, história, geografia, leituras
sobre comércio, higiene e etc. Ele salienta a importância do livro didático auxiliar
a educação empírica, experimental.
A
literatura para ele deveria servir bem mais do que apenas a apreciação da
literatura em si. O propósito fundamental deveria ser a compreensão e
apreciação da espécie humana, questões da humanidade e a contextualização geral
do grande drama humano. Sua obra afirma ser necessário o sujeito conhecer
diferentes tipos de literatura, porém não se faz necessário compreender seus
gêneros literários. A leitura deverá ser de fácil compreensão e em grandes
quantidades.
Em
suma, esta obra que é tida como a primeira a respeito da necessidade da
elaboração de um currículo comum, nos dias de hoje pode ser vista como arcaica
em muitos sentidos. Porém, não é minha intenção tecer críticas ao livro e sim
um resumo para facilitar o acesso ao conhecimento da obra. Muitos outros
fatores poderiam ser comentados aqui, afinal é uma obra extensa com mais de 260
páginas, porém, acredito que com esta resenha possa ter exposto sobre grande
parte das ideias de Bobbit. Uma das frases que gostei de ler no livro encerra
esta experiência em escrever sobre seu conteúdo de maneira positiva:
“A experiência supera a
memorização de fatos.”

Ameii, ótimas palavras!!!
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