sábado, 20 de junho de 2020

O CURRÍCULO (1918) JOHN F. BOBBIT


Resenha por Fernanda Mendes

 

    No início do século XX nos Estados Unidos da América havia uma consolidação da economia industrial e uma crescente estruturação do sistema capitalista. Neste contexto, é imperativo que exista a construção de novas escolas, como também uma nova concepção do sistema educativo que atenda os anseios populares e que consiga resolver os problemas resultantes da educação daquele momento, isto é, preparar corretamente os indivíduos para seus futuros papéis na sociedade industrial.

    Neste cenário, onde a era da ciência exige exatidão e especificidade, a educação era vista por muitos como a cura social para crianças delinquentes, crianças pobres, imigrantes e raças minoritárias como indígenas e negros (resultante de uma ideologia de estratificação social). Muitos teóricos, filósofos e sociólogos da época fizeram suas contribuições sobre a temática, dentre eles Armstrong que acreditava ser “a formação manual uma forma de corrigir os defeitos de caráter dos afro-americanos”. Percebemos que a intenção da educação era controlar socialmente os indivíduos. Conforme vamos avançando na leitura, vamos percebendo isso de maneira mais clara.

    John Franklin Bobbit, nascido em 16 de fevereiro de 1876 no estado de Indiana, nos EUA, dedicou sua carreira ao campo do currículo. Representa a corrente de pensadores que preza pela eficiência, sendo esta palavra aliada a objetivos os termos mais importantes de suas obras. Para ele, as pessoas só deveriam aprender aquilo que fosse realmente útil na vida prática, o que resultou em um currículo prático, objetivo, baseado na solução dos erros, que são visto como desperdício, o fruto de uma visão limitada. Então, nesta perspectiva, a escola não tem como papel a transformação da sociedade, mas sim funcionar como agência de controle social, estruturando-se na base de critérios de eficiência (taylorismo).

               

“A educação para a eficiência não é propriamente um sentimento, mas um negócio, não é caridade, mas sim uma orientação.”

 

    Bobbit percebia a escola como uma fábrica, onde se produziria o adulto desejado, com a personalidade moldada e trabalhada. Percebemos que assim sendo, a ideologia da eficiência social é cheia de padrões de segregação, pois visava colocar cada um em seu lugar pré-determinado, como se cada classe ou conjunto de pessoas tivesse nascido para determinado papel. Para o eficientismo, de acordo com as palavras de Levine: “temos de parar de ensinar a criança mediana, o gênio e o lerdo, eles não podem aprender ao mesmo tempo. Há que se formular um currículo para estes tipos de criança”. Atualmente, vemos que a multiculturalidade, a junção dos diferentes, o convívio com as mais diversas pessoas oportuniza um conhecimento rico, um aprendizado mais integrador e humanizado. Também defensor do currículo eficiente, Kliebard afirma dever existir um currículo diferenciado para as classes sociais diferentes.

               


 

      

    Dewey, filósofo e pedagogo respeitado por suas contribuições à educação, mostrou-se resistente a vocacionalização do currículo que em suas palavras “estava a minimizar a função mais importante da educação, a promoção do crescimento intelectual e moral”. Dewey ainda afirmou “um currículo virado apenas para a eficiência técnica faz da educação um instrumento perpétuo de manutenção da ordem social existente, em vez de operar como veículo de transformação”.



                

    Outra observação importante a se fazer é a referência do autor ao modo em que a mente sempre está ávida a conhecer, por curiosidade própria, sem no entanto preocupar-se na utilidade prática daquele conhecimento, daí a importância em selecionar os conteúdos de forma prática e útil.

    A maneira de aprender deve partir do conhecer, manipular, observar e depois ler a reconstrução das experiências de outros. Bobbit destaca veementemente a importância das aulas práticas através das atividades domésticas, destacando-se entre elas: a construção em geral, a costura e a gastronomia.

    A respeito dos objetivos da educação profissional, Bobbit salienta que quando os professores envolvem-se em levar o aluno a atingir o máximo de suas capacidades, desencorajando-o às ditas “profissões inferiores” (comerciantes, mineradores, agricultores, operários e etc.) resulta em uma frustração da maior parte destes alunos. Isto pois quando adultos e estiverem se inserindo no mercado de trabalho perceberão que não há espaço para todos, e acabarão se inserindo nestas profissões porém de forma despreparada. O ensino desta forma culmina na evasão de jovens ao perceberem a falácia educacional (ainda que bem intencionada) ao que o autor chamou de “bom senso”.

   Para uma eficiente educação é necessário a transmissão dos conhecimentos dos membros mais velhos aos mais jovens, ao que neste olhar a escola deve atuar como primeira agência do progresso social, fazendo com que a geração mais nova cumpra com suas funções no mercado de trabalho de forma mais eficiente que seus pais.

 

“A educação é o caminho para o progresso social. Como agências de progresso social, as escolas deviam prestar um serviço eficiente e um serviço orientado, não por suposição, capricho ou especial interesse próprio, mas pela ciência.”

 

    A ciência deve dominar a consciência do trabalhador, que deve pensar em cada fator nos termos da ciência. Assim sendo, essa eficiência se traduzirá em números, por exemplo: se antes um pedreiro era capaz de assentar 150 tijolos em uma hora, com a formação técnica especializada ele será capaz de assentar 350 tijolos no mesmo espaço de tempo. Aqui é evidenciado a valorização da destreza manual em determinadas profissões aliada ao discernimento intelectual. Sem a formação técnica necessária, em frente a um problema relativo ao trabalho o sujeito terá três possíveis reações:


  • Aplicar procedimentos empíricos, ou seja, aqueles que ele conhece por praticar ou de ouvir praticar;

  • Imaginar uma possível solução;

  • Não saber o que fazer.

    O indivíduo formado tecnicamente se sente preparado frente às diversas situações, não tendo que adivinhar as soluções, pois sua base será científica. Por esse e ainda outros motivos, a educação deve servir como uma preparação para a vida inteira. O indivíduo formado tecnicamente é capaz de assimilar facilmente novos conhecimentos de sua área específica, acompanhando assim as inovações científicas necessárias para a eficiência do seu trabalho. Aquele porém que não possui essa formação jamais conseguirá acompanhar as inovações necessárias ao seu trabalho, pois não possui os conhecimentos prévios necessários.

    Fazendo uma analogia à divisão do trabalho e suas alienações, Bobbit relaciona o trabalho do professor em sala de aula como o de um funcionário que não acompanha todo a produção de um determinado produto. Pensando assim, fazendo um paralelo em que o professor é o operário e o aluno o produto trabalhado, ele menciona que o educador deve ser especializado em uma área, porém deve ser generalista em todas as outras, ou seja, ter conhecimento básico sobre todo o ensino que o educando receberá, pois isso influenciaria no produto final: o adulto desejado.

               

TAYLORISMO

 

    Nesta altura do livro o autor aborda um pouco sobre o Sistema Taylor, fazendo certa referência a este na educação. No taylorismo não se espera que os trabalhadores façam qualquer reflexão ou julgamento ou ainda que tomem qualquer decisão, pois tudo é feito para eles, que simplesmente obedecem a ordens. Para Bobbit, o taylorismo era meio caminho andado para uma gestão eficiente, o que faltava era dar aos trabalhadores o conhecimento necessário para saber executar as ordens recebidas.



 

    As atividades escolares para a formação vocacional devem dar aos indivíduos uma noção da realidade, quanto à natureza do trabalho e dos materiais utilizados no trabalho, sendo assim a escola é um local de treinamento. Vemos neste contexto uma exaltação à necessidade de uma escola que ensina na prática a manipulação de matérias primas, como madeira, metal, ferramentas, tecidos e etc, ao que Bobbit chama de alfabeto da experiência. Além da experiências com estes objetos, os alunos deveriam conhecer o comércio (compra e venda), manipulação do dinheiro, poupança e seguros, contabilidade e afins.

 

O BOM CIDADÃO

    Desde as sociedades primitivas e mais antigas de que se tem notícia, as pessoas tendem a ter comportamentos baseados em duas virtudes: as intragrupo e as extragrupo. Essas virtudes seriam baseadas no sentimento de pertencimento a um determinado grupo, tendo em vista a subsistência do mais forte. Explicando melhor, uma pessoa de uma determinada tribo ou grupo deverá proteger os seus e repelir os “estrangeiros” de maneira enérgica. O bom cidadão então é visto como aquele que possui ambas virtudes básicas:


  • INTRAGRUPO à Dentro de um grupo; que se efetua, tem lugar ou está inserido dentro de um grupo social, instituição ou comunidade.

 

ü  Ajudar o outro;

ü  Ser justo;

ü  Ser cortez;

ü  Ser modesto;

ü  Ser humilde.


  • EXTRAGRUPO à Fora de um grupo, que é estranho aquela sociedade e não está inserido naquela comunidade.

 

ü  Destruição;

ü  Arrogância;

ü  Crueldade;

ü  Mentira.

 

    Aquele que é bondoso com o inimigo comete o crime de traição, e deverá ser julgado com o mesmo rigor daquele que é mal com os de seu grupo. Isso significa então que a natureza virtuosa ou repugnante de um ato em si não está no próprio ato, está no contexto social acerca deste. As virtudes e os vícios são vistos como coisas relativas e não absolutas. Matar uma criança de uma comunidade inimiga não tem o mesmo peso que matar uma criança da própria comunidade. Neste contexto, Bobbit diz que é mais comum uma pessoa possuir as virtudes extragrupo em um patriotismo exacerbado que praticar as virtudes intragrupo.

    Essa virtude dupla, imposta pela divisão social, leva à escola a necessidade de conceber um currículo que produza uma grande consciência de grupo, gerando nos jovens o sentimento de pertencimento. Essa consciência fará com que o sujeito pense, sinta e aja com o grupo, como parte dele.

    O bom cidadão deve olhar pelo bem coletivo, ou seja, pelo bem municipal em geral. As escolas então devem incentivar o conhecimento de temas práticos relativos à vida em comunidade, como: pavimentação asfáltica, eletricidade, impostos, saneamento básico, campanha contra mosquitos e outros. As pessoas ligadas à educação deveriam liderar a orientação e a realização das funções e tarefas cívicas. Numa democracia representativa a principal função das pessoas, enquanto cidadãos é a realização da sua função de inspeção.

    Sobre a educação física e os cuidados com o corpo, o autor relata que formar para um nível elevado de vitalidade física é um dos aspectos fundamentais da formação para a eficiência vocacional. A formação física perfeita é aquela que atinge 100% de nível de vitalidade e consegue manter este nível. Assim sendo, deverá conter não somente exercícios musculares como instruções sobre um período de sono suficiente, hábitos alimentares corretos, proteção contra os microorganismos, e etc.

    Bobbit afirma ainda ao longo da obra a necessidade imprescindível de cultivar o hábito de ler. Obviamente, ler aquilo que apresente uma revelação adequada dos dramas humanos, ou seja, ler para ter algo que o ajude a ver a vida de maneira totalizante. Essas leituras seriam sobre viagens, história, geografia, leituras sobre comércio, higiene e etc. Ele salienta a importância do livro didático auxiliar a educação empírica, experimental.

    A literatura para ele deveria servir bem mais do que apenas a apreciação da literatura em si. O propósito fundamental deveria ser a compreensão e apreciação da espécie humana, questões da humanidade e a contextualização geral do grande drama humano. Sua obra afirma ser necessário o sujeito conhecer diferentes tipos de literatura, porém não se faz necessário compreender seus gêneros literários. A leitura deverá ser de fácil compreensão e em grandes quantidades.

    Em suma, esta obra que é tida como a primeira a respeito da necessidade da elaboração de um currículo comum, nos dias de hoje pode ser vista como arcaica em muitos sentidos. Porém, não é minha intenção tecer críticas ao livro e sim um resumo para facilitar o acesso ao conhecimento da obra. Muitos outros fatores poderiam ser comentados aqui, afinal é uma obra extensa com mais de 260 páginas, porém, acredito que com esta resenha possa ter exposto sobre grande parte das ideias de Bobbit. Uma das frases que gostei de ler no livro encerra esta experiência em escrever sobre seu conteúdo de maneira positiva:

 

“A experiência supera a memorização de fatos.”

 

 


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