terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A IMPORTÂNCIA DA LUDICIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL

O QUE É LUDICIDADE?

Fonte: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/implementacao/praticas/caderno-de-praticas/aprofundamentos/198-o-lugar-do-ludico-na-educacao-infantil

Por Fernanda Mendes


Durante muito tempo a criança foi vista como um estorvo para a sociedade, um ser incompleto que, considerado um miniadulto, deveria ter a infância apressada. Comumente, a criança era silenciada ou imobilizada, subjugada pelo que Montessori afirma ser o “direito do adulto”:

Quando a criança se sentava nos móveis dos adultos, ou no chão, era repreendida; tornava-se necessário que alguém a pegasse no colo para que pudesse sentar. Eis a situação de uma criança que vive no ambiente dos adultos: um importuno, que procura algo para si e não encontra, que entra e logo é repudiado. Uma situação semelhante à de um homem privado de direitos civis e de ambiente próprio: um ser marginalizado pela sociedade, que todos podem tratar sem respeito, insultar e castigar, por força de um direito conferido pela natureza - o direito do adulto. (MONTESSORI, 1984, p. 7)

Desta forma, a ludicidade era tida como forma de entreter a criança, ou mesmo de recompensá-la por determinados comportamentos desejáveis. Hoje, no entanto, após muitos estudos, pesquisas e experiências educacionais diversas, sabemos que a ludicidade tem um papel determinante para o desenvolvimento da criança pequena. É por meio da brincadeira, do jogo e do brinquedo que ela se expressa, externaliza o que aprendeu, se manifesta, interagi e assim se desenvolve.

Quando uma criança imita um determinado papel social, como uma professora, por exemplo, ela está externalizando o que compreendeu sobre esta função, e isso é muito rico para ser explorado em seu desenvolvimento global. É preciso, porém, observar que a ludicidade na Educação Infantil deve ser apresentada à criança com uma intencionalidade pedagógica previamente determinada, pois:

Atirar qualquer brinquedo a qualquer criança pode agradar seu sentimento de posse, mas compreender a mente dessa criança e, com cuidado e critério, selecionar esse brinquedo, ensinando-a a brincar, é ir muito além, é, em verdade, educar. (ANTUNES, 2017, p.13)

De acordo com Carmo et al. (2017, p. 12.901)

O termo Ludicidade é utilizado e debatido por várias pessoas, em especial por professores pesquisadores da Educação Infantil. Segundo o dicionário Aurélio ludicidade significa: “qualidade do que é lúdico”. Ludicidade são atividades de caráter livre, para que uma brincadeira seja considerada lúdica ela deve ser de escolha da criança entre participar ou não dela. A ludicidade não se delimita apenas aos jogos, as brincadeiras e aos brinquedos, ela está relacionada a toda atividade livre e prazerosa, podendo ser realizada em grupo ou individual.

Assim, pode-se conceituar a ludicidade como uma forma de abranger as situações nas quais se usa a imaginação, a criatividade e a fantasia, por meio do uso da brincadeira, do jogo e do brinquedo. Deste modo, é fundamental conceituar cada uma destas três relevantes partes da ludicidade.

A brincadeira é uma atividade livre, que pode ocorrer com ou sem o uso de recursos ou brinquedos, que não possui regras e que pode ser realizada em grupo, em duplas ou de forma individual. A brincadeira depende somente da ação de quem brinca, podendo assim ser utilizada de modo muito peculiar pela criança.

O brincar é considerado umas das principias expressões do comportamento infantil, o brincar por intermédio de jogos e brincadeiras, faz a criança interagir com o seu ambiente material e emocional, compõe conhecimento, adota e gera cultura e também estabelece e certifica sua maneira própria de ser e estar no mundo. Sendo importante o brincar é tido como base central do trabalho pedagógico na educação infantil, pronunciando várias linguagens e experiências curriculares nessa primeira etapa da Educação. (PINATI et al. 2017, p. 59)

O jogo tem peculiaridades diferentes da brincadeira, pois depende do uso de regras. Para tanto, é preciso que a ação de jogar seja desenvolvida individualmente, por pares ou grupos, e que todos compreendam o objetivo e as regras. Henri Wallon (1879 – 1962) e Jean Piaget (1896 – 1980) estudaram profundamente a relação do jogo com o desenvolvimento infantil, observando que existem diferentes fases nas quais as crianças podem compreender os jogos.

Os jogos são importantes, pois a criança confirma as múltiplas experiências vivenciadas, como: memorização, enumeração, socialização, articulação sensoriais, entre outras. De acordo com as ideias de Wallon os jogos para criança têm papel de progressão funcional, já para o adulto tem papel de regressão, uma vez que, o homem quer se desligar o mais rápido das atividades lúdicas (deixar de ser criança), aproximando-se das atividades como o trabalho. É importante o papel de um adulto/educador presente em todas as fases desenvolvimento da criança, pois será capaz de intervir adequadamente no jogo infantil, estacando o progresso e possibilitando maior crescimento. Por conseguinte, o adulto deve ser um facilitador e não um jogador do jogo. (LUIZ et al., 2014)

Kishimoto (1977) descreve o brinquedo como sendo um objeto de profunda relação com a criança, que atribui significados únicos a ele, que pode ser utilizado de formas diversas, não sendo utilizado com base em nenhuma regra. Deste modo, a boneca pode ser para a criança a filha, a mãe, uma amiga, ou apenas um objeto a ser manipulado. Um carrinho pode ser um meio de transporte, mas também pode ser uma nave espacial, se assim a criança decidir. É a imaginação que faz com que o brinquedo ganhe vida e assim interaja com a criança. Os brinquedos não precisam necessariamente ser sofisticados, com tecnologias, luzes ou se movimentar sozinhos. Na realidade, uma criança é capaz de tornar uma caixa de sapatos um brinquedo, por meio do uso de sua imaginação. É preciso, no entanto, que o educador estimule a fantasia e a iniciativa da criança.

Ao compreendermos melhor a ludicidade, é preciso ainda pontuar que ela está definida como essencial também pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que apoiada em teorias construtivistas aponta “interações e brincadeiras” como eixo estruturante para as práticas pedagógicas envoltas nesta etapa educativa.

Considerando que, na Educação Infantil, as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças têm como eixos estruturantes as interações e a brincadeira, assegurando-lhes os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se, a organização curricular da Educação Infantil na BNCC está estruturada em cinco campos de experiências, no âmbito dos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. Os campos de experiências constituem um arranjo curricular que acolhe as situações e as experiências concretas da vida cotidiana das crianças e seus saberes, entrelaçando-os aos conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural. (BRASIL, 2018)

Deste modo, as situações que envolvem a ludicidade devem sempre pautar as práticas pedagógicas do professor que atua nesta etapa educativa. A BNCC aponta ainda que o fazer pedagógico deve compreender cinco distintos campos de experiência, que são: O eu, o outro e o nós, Corpo, gestos e movimentos, Traços, sons, cores e formas, Escuta, fala, pensamento e imaginação e também Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Os campos de experiência são fundamentais para que a criança tenha seus conhecimentos prévios valorizados nas práxis pedagógicas diárias, e torna o processo de ensino e aprendizagem mais dinâmico, significativo e relacionado à realidade.

Por fim, pontuamos ainda que é necessário dar voz ao aluno, criando sempre oportunidades nas quais ele se torne protagonista de suas aprendizagens, por meio de ferramentas e situações que gerem engajamento. Assim, atualmente, muito tem sido debatido sobre o uso de metodologias ativas na educação, que são justamente o uso de ferramentas que levem o aluno ao centro do processo educativo. É possível assim permitir que a criança escolha brincadeiras ou jogos, que estipule como deve usar os brinquedos, e assim tornar a sala de aula um espaço educativo mais democrático e dinâmico.


REFERÊNCIAS


ANTUNES, Celso. O jogo e a educação infantil: falar e dizer, olhar e ver, escutar e ouvir. Petrópolis: Vozes, 2017.

BRASIL, Ministério da Educação (MEC). Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília, 2018.

CARMO, Carliani Portela et al. A ludicidade na educação infantil: aprendizagem e desenvolvimento. XIII Congresso Nacional de Educação. EDUCERE. 2017. Disponível em: <https://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2017/23662_12144.pdf>. Acesso em: 22 nov. 2021.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida et al. Jogo, brinquedo, brincadeira e educação. São Paulo: Cortez, 2000.

LUÍZ, Jessica Martins Marques et al. As concepções de jogos para Piaget, Wallon e Vygotski. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 19, Nº 195, agosto de 2014. Disponível em: <https://www.efdeportes.com/efd195/jogos-para-piaget-wallon-e-vygotski.htm>. Acesso em: 22 nov. 2021.

MONTESSORI, Maria. A criança. Tradução de Luiz Horácio da Matta. São Paulo: Círculo. 1984.

PINATI, Carolina Taciana et al. Os jogos e brincadeiras na educação infantil. Ciência et Praxis, v. 10, n. 19, p. 57-62, 2017. Disponível em: <https://revista.uemg.br/index.php/praxys/article/view/2658/1505>. Acesso em: 22 nov. 2021.

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